A ciência abre janelas para a realidade, mas nenhuma permite ver o que estaria além dessa realidade

NA SEMANA passada, manchetes traziam novas do Fermilab, o enorme acelerador de partículas situado nas vizinhanças de Chicago, nos EUA: “Nova pista para explicar nossa existência”, escreveu Dennis Overbye, do “New York Times“. 

Interessante, esse título. Vários leitores escreveram reclamando da aparente necessidade de misturar ciência e religião até mesmo quando se trata de um experimento da física de partículas. Overbye cita Joe Lykken, um excelente físico teórico do Fermilab: “O anúncio não é equivalente a ver a face de Deus, mas os dedos do pé de Deus”. 
Lykken estava zombando de George Smoot, o prêmio Nobel que, ao revelar os resultados das investigações de sua equipe sobre as propriedades da radiação cósmica de fundo, produzida quando surgiram os primeiros átomos, afirmou que era como “ver a face de Deus”. 

Será que a existência de 

matéria e de antimatéria

 tem algo a ver com Deus? E, se não tiver, por que essa mania de invocar Deus quando se fala de cosmologia? 

Smoot não é o único. O também vencedor do Nobel Leon Ledermanescreveu um livro com Dick Teresi chamado “A Partícula de Deus”. 

Stephen Hawking, no seu “Uma História do Tempo“, afirma que encontrar uma teoria final é como “conhecer a mente de Deus“. Essas afirmações nos dizem não só algo sobre a expectativa do público, mas também sobre o papel cultural que físicos, especialmente aqueles trabalhando em questões ligadas a “origens“, exercem. Sou tão culpado quanto eles, já que minha pesquisa trata de origens. Será que a física é a nova teologia? 

De jeito algum.

 Confundir a prática da ciência com a religião é um erro grave. Por outro lado, a física moderna trata de assuntos que, por milênios, eram província exclusiva da religião. A cosmologia tenta construir uma narrativa que nos conta a história do cosmo. Esta história deve começar assim que o conceito de tempo passa a fazer sentido. 

Portanto, a cosmologia não quer apenas explicar por que o Universo é do jeito que é, mas por que o Universo é. Se tivermos sucesso, entraremos numa nova era da história das ideias: ao ser capaz de explicar a Criação, a razão humana seria equacionada com… sim, a mente de Deus! Vemos que não é tão surpreendente assim encontrarmos essa metáfora nos textos científicos. 

Ela revela ao menos parte das ambições do empreendimento cosmológico. Revela também, como argumentei em “Criação Imperfeita“, a necessidade de exorcizarmos essa metáfora da ciência. Ela não só confunde as pessoas como está errada. 

A questão do excesso de matéria em relação à antimatéria é essencial. Caso as duas existissem em pé de igualdade, não estaríamos aqui: quando matéria e antimatéria colidem, desfazem-se em radiação. 
Portanto, o resultado do Fermilab, que reforça resultados antigos, mostra que a versão atual da física das partículas é incompleta. Por outro lado, a descoberta não tem nada a ver com os dedões de Deus ou outra parte da anatomia divina. 

Ela é um triunfo da inventividade humana, irrelevante para a teologia. A ciência certamente abre muitas janelas para a realidade. 

Mas nenhuma delas nos permite vislumbrar o que ocorre além da realidade

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MARCELO GLEISER* – ciencia@uol.com.br

Artigo publicado na Folha de São Paulo, domingo, 30 de maio de 2010.

*MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro “Criação Imperfeita