à beira do abismo.

Estar vivo, existir, é caminhar permanentemente à beira do abismo, em uma trilha estreita e instável.
Olhar para trás apenas dá uma dimensão do tamanho da nossa ignorância: sabemos de nossa data de nascimento, local, nossos pais e estes e outros dados historicos de nossa personagem social. Mas essa personagem parece que é algo que pertence a um “alguém” que sou eu mesmo, mas que ao mesmo tempo não sou eu. Meu “eu” social, este que tem número de documento de identificação, é aquele que poderia aparecer no notíciario da TV, na contracapa de um livro, em um obituário… eu e mesmo poderia ler isso, como se se tratasse de um personagem que eu conheço, de quem já ouvi falar.
Ao olhar para trás e procurar por minha própria raiz na existência, o que encontro de mim mesmo? No que ficou para trás, apenas uma névoa que encobre o que seria o ponto de origem disso que sou eu mesmo. Quem pode explicar o mistério do eu? Quem possa apontar o momento do nascimento da individualidade, do existente interno e consciente de si mesmo, que sou “eu”? Quando foi que nasci? é possível alguém, de repente, olhar para si mesmo e dizer: Opa, acabei de nascer para a existencia consciente? E aí estabelecer data e hora do nascimento do eu? Parece que acordar de uma anestesia geral dá uma sensação próxima disso: quando me dou conta do assunto, já estou acordado! Mas não testemunho “o acordar”.
Quanta fragilidade! Quanta insegurança!
Tendo passado a experiência de sentir a força de um terremoto, em Santiago do Chile, este tipo de percepção se torna muito forte, muito evidente. E ela vem exatamente a contrapelo da outra consciência de desconhecimento e bruma: o futuro, e nele, a morte. Outro marco de nossa existência.
Segundo Franz Rosenzweig, o grande filófoso alemão e pensador judeu, a morte é o que nos define como seres existentes. A frase do Gênesis : “e viu Deus que era muito bom”, segundo Rosenzweig, indica no “muito bom” exatamente a morte, no sentido de que ela é que demarca a existência e por isso mesmo a tras à tona e lhe dá consistência ontológica e valor, pois com ela o indivíduo pode se saber “indivíduo existente”.
Entre esses dois obscuros marcos, do início (incerto) e do fim (obscuro), caminhamos nós, caminho “eu”, como uma pequena chama bruxuleante, emitindo minha parcela de pálida luz, mas, ao fim, “luz”  e “minha”. Nada pode dar conta da existência individual em sua interioridade inexpugnável. Nem que se conte quantas moléculas compõem a massa de meu cérebro e de meu corpo, nem que se mapeie e rgistre cada micro impulso elétrico, cada operação bioquímica que aconteça, cada região do meu cérebro que participe de uma experiência, não há nada que esteja comigo em nenhum de cada um dos milissegundo da minha consciência individual, não há um possível duplo de mim. Tudo o que qualquer neurocientista ou físico ou bioquímico ou psiquiatra disser de mim será sempre em “terceira pessoa”.
Nasci só, vivo e caminho à beira do abismo, morrerei só. “E viu Deus que isso era muito bom”.
Obrigado Rosenzweig.