[Review] Eduardo Spohr – A Batalha do Apocalipse

“Há muitos e muitos anos, há tantos anos quanto o número de estrelas no céu, o Paraíso Celeste foi palco de um terrível levante. Um grupo de anjos guerreiros, amantes da justiça e da liberdade, desafiou a tirania dos poderosos arcanjos, levantando armas contra seus opressores. Expulsos, os renegados foram forçados ao exílio, e condenados a vagar pelo mundo dos homens até o dia do Juízo Final.”

Antes o Primeiro General dos Querubins, a casta dos anjos guerreiros, Ablon agora é um Anjo Renegado, preso à sua forma humana, seu avatar, para sempre. Em busca de justiça ou vingança – a fronteira entre as duas é tênue – contra Miguel, o Príncipe, primogênito de Deus e maior entre os cinco Arcanjos (apesar de poderosos, Gabriel, Uziel, Rafael e Lúcifer não são páreo para o irmão), o Querubim passa por quase todas as eras e culturas da humanidade, desde as ruínas da Babilônia até o Império Romano, da China antiga até a fria Inglaterra Medieval.

É na Babilônia que a história de Ablon se cruza com a da feiticeira de En-Dor, Shamira. Shamira, uma necromante iniciante, é capturada pelo exército babilônico e jogada nos calabouços mais profundos do rei Imortal, Nimrod, após se recusar a cooperar com este. Contando com a colaboração de escravos insatisfeitos, a feiticeira consegue fugir para o deserto, onde encontra o Anjo Renegado. Começa, assim, uma amizade que duraria, literalmente, até o fim dos tempos.

A Batalha do Apocalipse, primeiro livro de Eduardo Spohr, já nasceu com cara de clássico. E isso não é exagero. Confesso que quando ouvi o Nerdcast (podcast do site Jovem Nerd) de número 80, que trata justamente sobre a obra de Spohr, achei um certo exagero o hype criado por Alexandre Ottoni e Deive Pazos, os donos do site e do podcast. Em determinado momento, o próprio autor diz: “Queria, assim como fez Tolkien, criar não apenas uma história, mas um universo”. Nessa hora, eu apertei o stop e pensei: “Quem esse cara pensa que é, pra se comparar ao Tolkien?”.  Tudo me pareceu meio exagerado, apenas para vender o livro mesmo. Se tivesse ouvido mais 30 segundos do programa, ouviria Spohr completando a frase com um “não estou me comparando com Tolkien, só dizendo que tentei fazer algo parecido com o que ele fez”. Se não foi isso, foi quase isso.

O difícil de fazer uma resenha sobre A Batalha do Apocalipse é que qualquer coisa que for dita pode estragar uma surpresa. Então, vou tecer meus comentários sem dar spoilers. A característica que salta aos olhos logo de cara no texto de Spohr é sua qualidade descritiva, que beira o cinematográfico. É impossível não visualizar os cenários, os objetos e os personagens como em um épico de ação. Aliás, “épico” é um termo preciso para descrever o clima que a história tem, do início ao fim. Outro grande trunfo do autor são os diálogos. Uma história boa não sobrevive sem bons diálogos, e os diálogos são simplesmente sensacionais. É possível sentir cada emoção dos personagens através de suas falas. Há uma identificação (ou repulsa) quase que imediata com os personagens apenas pela maneira com que se expressam.

Mas falar de A Batalha do Apocalipse sem falar de seus personagens é um pecado. Ablon, o protagonista, é um dos melhores personagens fantásticos (no sentido literal da palavra) que já vi. Quando acaba a leitura, a sensação do leitor é a de ter no Anjo Renegado um velho amigo, um amigo dos mais confidentes, tamanha é a profundidade na qual o autor mergulha. É possível entender cada motivação, cada atitude, cada fala do Querubim. E esse, meu amigo, é o ponto mais alto do livro. O mesmo acontece com os outros personagens, como Shamira, Aziel, Miguel, Lúcifer… Apesar de todos serem bem explorados, é impossível não destacar dois demônios que aparecem logo no início da história: Apollyon e Orion. Apollyon é o maior inimigo de Ablon, seu nêmesis desde os tempos em que era, também, um anjo guerreiro, conhecido como “Anjo Destruidor”. Depois de ser jogado ao Inferno junto com Lúcifer e um terço dos anjos, o perverso demônio recebe a alcunha de “Exterminador”. Orion, o Rei Caído de Atlântida, é um dos amigos mais antigos de Ablon, e se vê dividido entre acatar as ordens de seu Senhor, Lúcifer, e a amizade com o Anjo Renegado.

A história, em si, é muito rica em detalhes, e esse é outro ponto positivo. Nota-se que o autor pesquisou muito sobre variados temas, a fim de tornar seu romance mais verossímil, mas sem se prender estritamente à realidade. Os conceitos apresentados no enredo são muito interessantes e profundos, como a ideia de Deus estar adormecido durante o Sétimo Dia – que na verdade é uma era inteira. Uma coisa que achei particularmente bacana são as alcunhas que os anjos e os demônios recebem, que descrevem bem quais são suas principais características, como Nathanael “O Mais Puro” e Amael “Senhor dos Vulcões”.

O capricho na parte gráfica também chama a atenção. As ilustrações da capa foram feitas pelo talentoso Harald Stricker, e o título do livro e o nome do autor vêm em alto relevo. Acabamento excelente. O único ponto negativo que destaco são alguns erros de acentuação em algumas palavras e a grafia de outras, o que, penso, é apenas um deslize na hora da revisão.

As influências são explicitadas pelo próprio Spohr no livro: o filme “Anjos Rebeldes”, os quadrinhos do selo Vertigo, como Sandman Preacher, além de Tolkien, H. P. Lovecraft e Joseph Campbell. Noto, porém, algumas outras influências, mais discretas, mas ainda assim perceptíveis, como jogos de RPG, filmes de ação (principalmente Matrix, em uma das melhores cenas, no fim do livro) e Bernard Cornwell.  

Um livro sensacional, merecedor, sim, do hype que antes foi questionado por mim, e de todos os elogios possíveis. Com A Batalha do Apocalipse, Eduardo Spohr brinda seus leitores com o melhor livro de ficção em língua portuguesa já escrito. E sem exageros.